No dia 3 de novembro, aconteceu o terceiro webinar INCT NeuroComp ministrado pelo professor Draulio Araujo, do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Segundo Araujo, introduzir perturbações controladas no sistema é uma estratégia científica fundamental para compreender melhor a cognição humana e a base neural do funcionamento cerebral. Para mapear as respostas a essas perturbações sem a necessidade de procedimentos invasivos em humanos são feitas a eletroencefalografia (EEG) e a ressonância magnética funcional (fMRI). Enquanto a EEG oferece alta resolução temporal, a fMRI destaca-se pela resolução espacial, permitindo estudar de maneira complementar como diferentes áreas e redes cerebrais se comunicam e respondem a estímulos.
O conceito central da exposição do pesquisador gira em torno dos estados alterados de consciência, definidos como mudanças globais na experiência subjetiva, percepção, pensamentos e emoções, semelhantes a um estado de sonho. As substâncias psicodélicas, utilizadas pela humanidade em contextos rituais e cerimoniais há pelo menos 10.000 anos, caracterizam-se por um forte agonismo nos receptores de serotonina (como o 5-HT2A). Entre elas, a ayahuasca e a DMT destacam-se por induzir profundas alterações na dinâmica cerebral, aumento de entropia e flexibilidade nas conexões funcionais entre redes neurais.
Nos estudos iniciais do Instituto do Cérebro utilizando ayahuasca, foi detectado o aumento da atividade no córtex visual e alterações em áreas associadas a experiências oníricas. Com o passar dos anos, o laboratório direcionou o foco para o uso da DMT isolada, extraída de plantas encontradas no Nordeste brasileiro, como a jurema preta. Por meio de inalações de DMT de alta pureza em voluntários saudáveis, a equipe constatou que o organismo metaboliza e elimina a substância com extrema rapidez, gerando efeitos de curta duração acompanhados de alterações eletroencefalográficas específicas.
Além da investigação básica sobre a dinâmica cerebral, os estudos clínicos conduzidos com ayahuasca e DMT demonstraram resultados promissores no tratamento da depressão resistente a tratamentos convencionais. Os dados clínicos apresentados indicam taxas elevadas de resposta e remissão dos sintomas já no primeiro dia após a intervenção, além de uma redução expressiva na ideação suicida dos pacientes. Atualmente, encontram-se em andamento estudos multicêntricos de fase clínica avançada em diversas instituições brasileiras para consolidar esses dados de eficácia e segurança.
A discussão com a audiência focou nos desafios metodológicos de isolar o efeito placebo em ensaios com psicodélicos, bem como a importância central da experiência subjetiva e dos insights na eficácia do tratamento. O professor argumentou contra a separação simplista entre os efeitos psicodélicos e os mecanismos puramente neuroplásticos (como os chamados “neuropsicoplásticos”), defendendo que a própria vivência consciente e individualizada do paciente atua como um fator estruturante e duradouro na mudança de perspectiva frente aos transtornos mentais.
