O segundo webinar do INCT NeuroComp aconteceu no dia 07 de outubro e trouxe resultados de uma pesquisa inédita do professor Daniel Takahashi, do Instituto de Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). O evento foi uma oportunidade para o público conhecer avanços metodológicos sobre a dinâmica cerebral de saguis durante a comunicação vocal e interações sociais complexas.
O início da palestra foi uma contextualização sobre a espécie analisada. Takahashi explicou que os saguis são pequenos macacos originários do Nordeste brasileiro. Do ponto de vista neurocientífico, esses animais representam um modelo de estudo ideal devido à sua estrutura cerebral típica de primatas. Além de contar com cerca de 30 regiões corticais anatomicamente definidas, apresentam comportamentos sociais convergentes com o dos humanos, como o cuidado cooperativo dos filhotes e a aprendizagem vocal parental.
Um dos eixos centrais da palestra abordou o uso da ultrassonografia funcional, uma técnica inovadora desenvolvida em colaboração com pesquisadores belgas. O palestrante detalhou as vantagens desse método em comparação com a eletrofisiologia e a ressonância magnética funcional tradicional (fMRI). O equipamento, pesando apenas cinco gramas, permite registrar simultaneamente grandes volumes de tecido cerebral profundo com uma excelente relação sinal-ruído, possibilitando até mesmo a análise de ensaios individuais em animais que se movimentam de forma livre.

Ao investigar a percepção dos chamados vocais, o estudo demonstrou que o cérebro dos saguis decodifica prioritariamente a categoria social do som. Ou seja, o contexto em que o chamado é emitido, como a proximidade ou o afastamento entre os indivíduos, é priorizado em detrimento das características puramente acústicas. A análise de redes revelou que, durante a percepção auditiva, as informações entram primariamente através do córtex cingulado anterior (ACC) e de uma rede subcortical, sendo posteriormente enviadas para as regiões corticais.
Em contrapartida, quando os saguis realizam a produção vocal, o fluxo de informações no cérebro se inverte quase por completo. O processo tem início no córtex sensório-motor medial, tradicionalmente, uma área que não era considerada relevante para a emissão vocal em primatas não humanos, depois, propaga-se para a rede subcortical e o ACC. Essa oposição dinâmica entre áreas corticais e subcorticais evidencia um padrão em larga escala que opera como um mecanismo de balanço energético e funcional no cérebro dos animais.
A sessão de perguntas, mediada por Kerstin Schmidt que também é professora na UFRN, foi enriquecida pelas contribuições de pesquisadores como Mauro Copelli e Gustavo Rohenkohl. Os principais pontos debatidos foram os paralelos evolutivos com a linguagem humana, as especificidades técnicas do ultrassom funcional e o papel de sub-regiões do córtex cingulado anterior. Questões sobre modulação hormonal e a presença de receptores em redes comportamentais sociais também abriram horizontes sobre como o desenvolvimento comportamental pode ser influenciado por fatores bioquímicos.
Em resumo, a palestra de Daniel Takahashi ilustrou como a combinação de neurociência comportamental, modelagem matemática e novas tecnologias de imagem é capaz de iluminar os mecanismos neurais subjacentes à comunicação social. O trabalho não apenas reforça a relevância dos saguis como modelos comparativos para o entendimento dos circuitos motivacionais e vocais, mas também abre caminhos para investigações futuras sobre a evolução das interações comunicativas.
